11.10.09

10 - Então até depois.

Talvez das coisas que me vai custar mais é mesmo deixar a minha familia para trás... amigos e familia biológica como é óbvio. Apesar de sermos um grupo pequeno e em que ninguém se mete na vida de ninguém, sabe-se sempre tudo e mais alguma coisa do que se passa entre nós.

Contudo a noticia de hoje vai deixar muitos de boca aberta pois penso que nenhum estava à espera de uma mudança tão rápida e drástica...

- Ora então boa noite!!

- Então isto são horas de se chegar??

- Qualquer hora é hora de chegar não??

Num grupo onde a desconversa é o tema principal de conversa até ficaria admirado que se falasse de algo importante.

- Bem eu daqui a três dias vou para Londres...

Não sei o que foi mais dificil, se tentar convencê-los que estava a falar a sério, se despedir-me realmente deles. Não que eu vá para realmente longe e nunca mais volte, ou que vá passar meio século sem os ver, mas nas despedidas, ou simplesmente nos "até já" fica sempre um gosto amargo em que se pensa que se calhar até dava para pegar neles todos e levar no bolso para que todas as noites se pudesse encontrar num qualquer pub e ter uma fabulosa e deliciosa desconversa.

- Bem resta-me então dizer até depois não é verdade?? Espero vir cá nos fins de semana...

E mais palavras para quê?? Basta simplesmente sair por onde entrei e esperar que a saudade que eu vou ter quando aterrar, seja a mesma que eles iram ter quando o avião descolar.

Mais uma etapa feita. Vamos agora arrumar a tralha toda que é preciso levar para outro país!!

25.9.09

9 - Até já.

Mas se realmente era mau estar numa entrevista de emprego encharcado, pior mesmo é ter que voltar para casa de transportes públicos e... encharcado! É quase delicioso ver a repugnância que certas pessoas emanam através dos seus rostos para com a minha figura molhada e, quem sabe, um tudo ou nada mal cheirosa. Sinto-me o verdeiro obreiro! O puro e duro, que não tem medo de ir para a vala puxar tubos, que no final do dia vem no belo do transporte público e ainda é capaz de dar uma palmadinha nada inocente na senhora da frente para... ajudar a subir as escadas.

E agora sim, é o momento ideal para me enfiar na minha bolha de felicidade e ficar a olhar para o dia de ontem mas a pensar no de amanhã... neste caso no daqui a três dias... anhar no banho é relamente fabuloso, não contribui em nada para o meio ambiente, é mais que certo, mas é dos únicos momentos somente meus que consigo ter hoje em dia. Um qualquer CD de música a tocar na aparelhagem, a àgua quente q.b. , e vá de mergulhar num mundo de pensamentos aleatórios que se atropelam como "bando" de mulheres em dia de saldos.

Não sou pessoa de fazer planos para um futuro longínquo, pois acho que se deve viver ao máximo o presente pois não sei se realmente irá haver um futuro, mas gosto de ter os dias e acções bem planeadas... mesmo que saiba que no final nada vai correr como idealizei... mas se correr, simplesmente, já me dou por contente e ao menos estou preparado para um ou outro imprevisto...

Banho tomado e finalmente é tempo de dar a grande notícia a todos aqueles que sei que se interessam e que vão, ou será que devo dizer, vou sentir falta?? É mais que certo que os meus pais já estavam à espera de tal, já os tinha a modo que preparado, pois acho de bom tom fazê-lo, pois percebo que é sempre difícil ver partir para ainda mais longe alguém que tiveram por perto durante tanto tempo...

Falta então falar com os amigos e é bom ter um local de encontro comum onde todos se possam juntar e dizer um até já.

7.6.09

Na esperança que a inspiração e vontade voltem um dia a casa...

3.3.09

8 - Cão guia

É engraçado o cliché do "quando gostamos das coisas parece que o tempo voa...", é engraçado porque invariavelmente acontece-me o contrário! Acabei de me sentar neste sofá e parece que estou aqui há horas e que eles nunca mais me chamam...

- Sr. João, pode entrar por favor?

Até que enfim...

- Bem, não foi precisa muita deliberação sobre o seu futuro na nossa empresa pois pareceu-nos desde que entrou...

Oh diabo... o que virá daqui?? Pareceu que andei no lixo é o que é...

- ... que é uma pessoa decidida acerca do que quer e claro que já provou que o consegue... não é para lhe aumentar o ego, mas se realmente queria este emprego, acabou de o conseguir...

Salto?? Não salto??

- ... os meus sinceros parabéns.

- Muito agradecido...

- Muitos parabéns caro João, mas peço desculpa pois vai ter que me aturar durante muito mais tempo pois eu vou ser a sua, digamos, guia nestes próximos tempos.

Bem sendo assim se calhar vou recusar...

- Não me diga... vou ter que a ver de novo??

- Sim, estamos a implementar um processo de melhorar a integração dos nossos funcionários de topo em que cada novo funcionário irá ter o acompanhamento durante os primeiros tempos.

Contracto assinado, bilhetes na mão para um voo que sai de Lisboa daqui a três dias... três dias para arrumar a minha vida aqui e fazê-la voar para um país estranho do qual pouco conheço. Três dias para dizer um "até já" a todos aqueles que me são importantes por aqui e que não posso levar no bolso. Mas acima de tudo, três dias com um sorriso na cara com a satisfação que daqui a pouco vou estar com um banho tomado e que por hoje não vou ver a dona Inês... pelo menos por três dias.

13.12.08

7 - Tigres brancos

- Você tem a noção que nós aqui, gostamos de contactar somente a elite do jornalismo para que possamos ter a certeza que o que transmitimos aos nossos leitores é de extrema qualidade certo?

- Sim sei, senão não se davam ao trabalho sequer de fazer esta entrevista... pois penso que seja para isso que ela serve... ver se sou mais um número.

- Muito bem senhor João, estou a ver que tem as ideias muito delineadas sobre as suas capacidades. Não acha que isso o torna um pouco convencido?

- Como já disse antes, sei o que quero e não vou deixar que sejam outros a dizerem-me quais as minhas capacidades ou o que devo fazer ou não...

Digam o que disserem, depois de isto tudo, não me vão deitar abaixo!! Eles que venham!!

- Muito bem senhor João, vou-me reunir então aqui com os meus colegas. Pedia-lhe então que se ausentasse por uns momentos que daqui a nada já o voltamos a chamar para o informar sobre a nossa decisão...

- Já hoje??

- Sim, não gostamos de fazer esperar ninguém.

A parte boa?? Vou largar esta cadeira irritante, pelo menos por agora... a parte má é que andar todo molhado e frio, é completamente desagradável e parece que estou assado nas virilhas, ou que aprendi a andar há dez minutos atrás!!

Bem mas ao menos se me derem a resposta agora, sempre dá para organizar a minha vida, qualquer que seja o veredicto.

Este sofá nunca me pareceu tão bom pousio como agora. A secretária olha-me como se fosse um palhaço no circo de quem todos estão à espera que diga algo engraçado ou que se parta todo por escorregar num cliché como uma casca de banana ou algo parecido.

Por caso algo que nunca achei graça foi a palhaços, demasiados clichés juntos numa só actuação, óbvio que quanto mais crescemos mais nos apercebemos disso, mas palhaços realmente bons são algo como o nascer de um tigre albino, todos sabemos que existe, que mais cedo ou mais tarde vai nascer, mas até ao nascimento de um, vemos nascer 1001 tigres iguais a tantos outros.

29.10.08

6 - Pijama

- Foi para isso que cá vim!

Sim não foi de certeza para ficar nestes modos que saí de casa como é óbvio...

- Vamos lá então começar. Vejo aqui que foi um dos melhores alunos de sempre na sua Faculdade... ou seja tem muito a provar não é verdade??

- Não necessáriamente, se fui o melhor da minha Faculdade está intrínseco que já provei que sou realmente bom no que faço.

Bem apesar de me querer levantar e partir esta cadeira ao pontapé, acho que ainda consigo demonstrar confiança e mostrar que tenho o ego lá bem em cima...

- Sim senhor... sim senhor... estou a ver que estar nessas poses não lhe tiram o ânimo... ainda bem...

Loiras enervam-me, principalmente as dos recursos humanos, principalmente as que vão às minhas entrevistas, principalmente esta Inês!

- Penso que apesar de tudo estão aqui para me avaliar como futuro profissional, e acima de tudo como pessoa. Peço desde já desculpa por me apresentar assim, mas ocorreram uns problemas nas vossas instalações antes desta entrevista...

- Pois, já sabemos disso.

- Bem mas não falemos disso agora, aqui a dona Inês gosta bastante da aparência dos candidatos, e a sua, infelizmente não está nos melhores modos, mas como disse, estamos cá para o avaliar. Tenho aqui bastantes recomendações, gosto disso, mas isto leva-me a pensar que talvez você seja, digamos, um engraxador...

- Bem penso que todas essas recomendações devem-se sobretudo ao trabalho que desenvolvi na minha vida académica. Quanto ao engraxar acho que não faz parte da minha personalidade, chateio quem tenho que chatear com os devidos motivos, neste caso o motivo de ter ou não recomendações não é algo que me preocupe muito pois tenho perfeita noção das minhas capacidades. Se mais alguém tem essa mesma noção, então nesse caso posso dizer que é bom para mim.

Acho que nunca falei tanto na vida! Parece que estou aqui numa discussão do "por favor não me mates". Parece que quando estamos numa entrevista de trabalho, estamos a defender as razões porque devemos estar a respirar, e não as razões porque nos devem contratar para nos pagarem miseravelmente e trabalhar mais do que o horário permite.

- Muito bem, então e diga-nos então qual a razão que nos vai levar à sua contractação.

- Bem se me chamaram para uma entrevista sem sequer eu ter enviado qualquer curriculum é porque realmente estão interessados em mim, e os meus feitos despertaram alguma curiosidade em vocês. Quanto à razão que vos irá levar à minha contratação, bem isso primeiro depende apenas de vocês, pois como disse, o jornalismo é algo de que gosto e fascina bastante, daí a facilidade com que tirei o curso e estou aqui perante vocês. Como não tenho nenhuma prova dada em questão de trabalho, é com isso que acho que se têm que basear.

- Muito bem...

Mas será que a resposta é sempre "muito bem"?? Detesto quando uma pessoa se tenta esforçar, tenta dar algo do melhor que tem e depois recebe algo como um "pois...". Sinceramente! Ao menos algo mais encorajador mesmo que o que se tenha tentado fazer tenha sido a real das merdas!

Falar em merda, já vos contei da cadeira não já?? Já vos contei que me irrita não já?? Já vos contei da loira não já?? Já vos contei que me irrita não já?? E do facto de estar todo molhado e estar a entrar naquele estado em que o desconforto é tanto que se tirasse a roupa agora, iria parecer que tinha vestido um pijama polar e tinha ficado quente assim de repente...

28.10.08

5 - A cadeira.

- Um milagre não lhe arranjo... mas penso que por aqui há toalhas. Vou tentar arranjar-lhe uma.

Que coisa bonita! Bem, está visto que depois disto tudo não vou mesmo à entrevista! E isso chateia-me! E não é pouco! Emprego em Londres... e num jornal de topo como o The Journal.

Maldita bola de berlim!! É o único pensamento que tenho agora...

- Agradecido... e desculpe esta visão, mas os compartimentos na casa de banho dos homens estavam fechados.

- Não se preocupe, vou fingir que isto nunca aconteceu. Afinal de contas, nem o conheço...

- E se não se importava, gostaria que assim continuasse... acho que só o facto de estar na casa de banho feminina para mim é humilhação que chegue, quanto mais nestes modos.

Enquanto me limpo e seco, só me dá vontade de desatar a correr daqui para fora com as pernas tortas e os pés a bater nas costas, de braços abertos sobre a cabeça e a gritar como se o mundo fosse acabar... pelo menos acho que me tirava um bocado do stress.

- Bem então se calhar agora deixo-o por aqui consigo mesmo... acho que estou a mais... e já agora boa sorte com isso.

- Bem preciso, mais uma vez agradecido e as minhas sinceras desculpas...

A porta fecha-se e só me apetece partir alguma coisa... contorço-me para acalmar as ânsias. Num suspiro de lamento lá me tento secar o máximo que posso e o mais rapidamente possível...

Já estava farto de estar naquela casa de banho... e este corredor parece-me maior não sei porquê. Bem agora é pegar nas minhas coisas e desatar a correr daqui para fora...

- Sr. João, pode entrar já. Já estão à sua espera.

- Desculpe mas eu já...

- Venha por aqui Sr. João.

Ok... belo momento para por a cabeça de fora do escritório. É nem mais nem menos, Norberto Santos, o senhor todo poderoso da secção do The Journal, a pessoa que me vai entrevistar...

- Então que se passou com essas calças?

- Uma longa história...

- Oh! Então faça o favor de entrar, temos muito tempo para a ouvir...

Só não caiu parte de mim, porque está agarrada, porque senão estava neste momento a apanhá-la do chão!

Que remédio senão entrar... e me cair de novo parte de mim... heis que estão mais duas pessoas sentadas numa enorme mesa, defronte de uma pequena cadeira.

Algo normal, se não fosse o facto de uma dessas pessoas estar com um sorriso sarcástico, ser loira e ser exactamente a rapariga que me auxiliou em momentos difíceis cinco minutos antes!! Lá veio de novo o pensamento do desatar a correr.

- Vá-se sentando que já apresento estas individualidades que aqui estão.

E eu sentei-me... ou melhor, tentei sentar-me, pois a cadeira era tão boa como as casas de banho. Além de manca, de ranger por cada movimento mínimo que faça, as costas da cadeira parecem desabar quando me encosto a elas...

- Bem eu penso que já saiba quem sou, Norberto Santos, sou eu que dirijo as publicações do The Journal. À minha direita tenho Ângelo Silva, o meu braço direito, e ao meu lado esquerdo Inês Saraiva, a nossa menina bonita dos recursos humanos.

A muito custo lá me saiu um...

- Boa tarde e muito prazer.

Não sei o que me irritava mais, as calças molhadas, a cadeira a desabar ou o sorriso estampado na cara da tal Inês Saraiva, sorriso de quem quer rebolar no chão agarrada à barriga e rir até lhe faltar o ar.

- Bem penso que todos nós sabemos porque estamos aqui, vamos então começar com isto Sr. João?

27.10.08

4 - A entrevista

Acabadinho de tirar o curso, feliz da vida!

Posso dizer a quem se interessar que fui o melhor aluno que aquela faculdade já viu, não por me estar a gabar mas sim por ser verdade. Menções honrosas de metade dos professores, e a outra metade a odiar-me!

Digamos que sempre achei o curso fácil, são coisas que me interessam e com um pouco de esforço consegui chegar onde cheguei, e isso irrita muita gente, eu incluído porque todos me olham como um bicho que caiu sei lá de onde.

Tenho propostas de todo o sítio e mais algum para me empregarem, o que é bom dado que neste ramo as coisas tendem a ser um tudo ou pouco lentas, e ter propostas do Reino Unido é simplesmente genial a meu ver!

Hoje é o grande dia! Primeira entrevista de trabalho, nervoso miudinho, roupa bem passada a ferro, gravata bonita e camisa a condizer. Sapato a brilhar e para finalizar uma gastroenterite provocada talvez por uma bela de uma bola de berlim com creme!

Se uma entrevista de trabalho é para nos porem à prova, melhor prova que esta não poderia ter!

Meia hora antes lá estou eu sentado num sofá de pele a dar para o executivo à porta do que poderá ser a pior entrevista de sempre!

Entre o meu ar sério que poucas vezes tenho, tenho também o ar sério de quem tem algo a esconder e sua que nem uma lagosta numa panela com água a ferver. Entre isso o ardor estranho de quem engoliu um isqueiro aceso. Está bonito isto...

Bem ainda falta algum tempo...

- Olhe desculpe, poderia-me dizer onde ficam as casas de banho??

- Sim, corredor, primeira porta à direita.

- Agradecido.

Um levantar suave do estilo "vou só verter as águas e não estou completamente em pânico"

Primeira porta à direita, fabuloso, estou a ver o Céu! Aqui todos os meus problemas iram ser resolvidos! Ok... se calha estou enganado... Sanitas fora de serviço! Fabuloso! Não, digo mesmo, fantástico!

Bem mas não será por aqui que me vou deixar ficar mal, se elas podem... também eu posso...

Um olhar para a esquerda, outro para a direita... um bater na porta suave, ninguém responde e é entrar muito rápido!

Afinal as casas de banho das mulheres não são muito diferentes, e até têm as sanitas a funcionar.

Tudo a correr bem até ouvir a porta a abrir... alguém a entrar, ok altura de esperar caladinho, quando entrar num compartimento despacho-me muito rápido, e é o golpe perfeito.

A porta fecha... a outra abre... altura de me limpar e vestir muito rápido! Já não me interessa o barulho.

- Olhe desculpe, você ao lado...

Ok, sou eu!! Descobriu que eu estou aqui, não vou responder, vou descarregar isto para não ter que responder!!!

- ... esse autoclismo faz espirrar a água, tenha cuidado...

"ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh" penso eu enquanto olho desolado para o meu lindo, novo, esbelto, novo, fabuloso, novo fato nauseabundo com tudo o que não se quer quando se está prestes a ir ter uma entrevista!!! Porque não falar mais rápido?? Porquê confiar em bolas de berlim?? Porquê vir a sítios onde não devia estar??

Calma! O mal está feito há que resolvê-lo! Papel, muito papel! Limpar!! Está a limpar!!! Fabuloso, um pouco de água e vai ficar bom, estou confiante disso!!

Saio, e dirijo-me ao lavatório! Abro a torneira...

- MAS SERÁ QUE NADA FUNCIONA BEM!?

- Pois essa torneira também não está boa...

Ok... agora alguém a presenciar a minha desgraça! Que bom... que vou dizer agora??

- Precisa de ajuda?

- Acho que preciso mesmo é de um milagre neste momento...

26.10.08

3 - O começo...

Pior do que andar de metro com todas as personagens e loucos que possamos alguma vez imaginar... pior mesmo que isso, é sem dúvida andar a pé!

Perdão, quando digo andar a pé digo andar a pé com uma toda e gira pastilha elástica colada no sapato. Porquê??

Para além do divertimento que é estar atrasado, o divertimento de pensar que vou levar um sermão, não da mãe, não do pai, mas sim do patrão que a única relação que tem para com a minha pessoa é ganhar pelo menos o triplo do que eu ganho, divertimento digno desse nome, é tirar a bela da pastilha do sapato.

Além do pensamento que me assola de não saber (nem querer saber sequer) onde aquilo andou, é o facto de tal acto me tornar psicótico! Mesmo sabendo que tirei aquele ente estranho, fico sempre com a sensação que continuo a ter algo!! É terrível, é estúpido, sinto-me estúpido, mais até do que já sou, pois de 5 em 5 passadas, paro, olho para a sola e penso "oh não tem nada..."

Como é óbvio, 5 passadas depois estou eu a parar novamente em pleno passeio e a olhar para a sola...

E com isto tudo faltei ao prometido... ainda não comecei a contar a minha história...

Então aqui vai:

25.10.08

2 - Valide o bilhete

Ainda bem que tudo corre bem quando queremos, mas isso também já se torna um hábito, e já nem ligamos aos 42394729385792847234 papeis e facturas que tenho na carteira, que deveria ter posto no lixo há pelo menos 6 meses, e que caem sempre nos momentos mais oportunos! Como por exemplo a validar o bilhete do metro com pelo menos 50 pessoas atrás de mim.

E como é óbvio passou o tempo de poder passar pelas cancelas, e como é óbvio o senhor sempre simpático do metro diz que deveria ter passado pois agora o cartão não vai dar... será que sou eu que sou parvo e gosto que o tempo para passar pelas cancelas passe, ou será que aconteceu algo que me fez ficar retido e não poder passar?? São estas sem dúvida as questões existenciais que assolam os sempre simpáticos senhores do metro...

É óbvio que não me vou queixa por estar atrasado nem tenho que pegar nisso para justificar a raiva que me está a dar o individuo que está à minha frente, que pelos vistos tem dinheiro para comprar um telemóvel topo de gama, mas não tem as posses monetárias para comprar uns head-phones para o mesmo e me obriga a ouvir... ok ouvir algo que não vou catalogar.

Nem me vou queixar do cheiro nauseabundo do frasco de perfume que a pseudo-tia que está sentada ao meu lado pôs para talvez poderem olhar para ela e para o belo do esticanço que levou na pele...

São estes pequenos prazeres da vida que me fazem pensar: porque raio não nasci eu rico?? Ou numa aproximação mais, digamos, contraditória, porque não nasceram todos eles ricos?? Assim não tinha que andar na mesma carruagem que eles!

24.10.08

1 - Demasiado tarde para ser cedo

Acordei num sobressalto como se todo o prédio tivesse desabado num único segundo… quando voltei a mim e engoli de novo o coração, vi que a realidade é que o meu estúpido despertador estava a tocar o mais alto que conseguia e mesmo assim não fez o favor de me acordar a horas…

Mais uma vez atrasado, mais uma vez a correria de sempre e o bom stress de fazer tudo ou ao pé-coxinho, ou praticar a arte circense de atar os sapatos com uma mão e fazer uma torrada com a outra…

Como adoro as manhãs, mas acima de tudo como adoro os meus vizinhos, que das duas uma, ou acordam tarde todos os dias e também não estão no horário deles, ou sou eu que me meto constantemente no deles e como castigo prendem-me o elevador nos andares de cima. Não que o factor “descer 48 degraus” seja mau, mas o factor “descer 48 degraus a correr para não perder o próximo metro, tentar não deixar cair a mala, não me engasgar com a torrada e não apertar demasiado o pacote de leite para não sujar as calças” é algo que me deixa bastante incomodado todos os dias…

Já agora, com estes pensamentos todos, acabei por nem me apresentar, chamo-me João, sou jornalista, não tipo Tintin, mas sim tipo velho gordo da redacção que passa o dia a editar o texto que os outros escrevem, exceptuando a parte do gordo… daqui a uns anos talvez, por enquanto não apetece empanturrar-me com vinte quilos de comida diariamente, porque até o facto de mastigar me mexe com o sistema nervoso…

Agora estão vocês a pensar: “então e o que me interessa a vida de um sujeito chamado João e que é jornalista??”

Ao que eu respondo: nada, mas talvez a minha história, aquela que vos irei contar de seguida, talvez essa história, seja a história da vossa vida…

Esta é a minha história.